sábado, 30 de abril de 2011


Tulerunt Lapides


"Num fio de voz viajo por universos paralelos à minha consciência.

No turbilhão das dissonâncias, reencontro sorrisos alegremente sentidos,

Outrora vividos e perdidos para realidades esfumadas sem explicação.

Crivo a esperança no despontar da arsis melódica que antevê um lento repousar.

Escorrem-me lágrimas passadas pelo rosto perante a invasão polifónica que me derruba os

alicerces da sobrevivência terrena, trazendo ao pensamento gavetas bem guardadas das emoções.

Repouso em silêncio, numa longa e sustentada nota que espera pela resolução.

A cadência não tarda, e avidamente sinto a paz que me percorre o corpo contagiando a alma julgada perdida.

Na tesis do poema, descansam as memórias."


Joana

sexta-feira, 25 de março de 2011

Around the world

"Pérolas do oceano, é o que chamo ao meu amor que me trouxe o engano num belo dia onde a lua já brilhava."


Jancsi

segunda-feira, 14 de março de 2011


Ventos Cruzados

"Quebraram-se os laços de ingenuidade que nos ligavam.
Escorrem-me por entre os dedos, lágrimas de conformidade.
Sinto uma leve brisa que me sacode as asas, e avisto o mar com serenidade.
O cheiro de outras Primaveras esperança o meu voo,
Pairando por entre o céu de azul pintado.
Olho para trás mais uma vez…
Talvez um dia, as tempestades nos levem a descansar no mesmo ramo, como outrora o fez."


Jancsi

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011




Fim de Tarde




"Num doce fim de tarde, o horizonte conspirava a nosso favor.
Segredava ao mar que perdidas na cidade, duas aves descansavam as asas na mesma árvore."


Joana Castro

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Beijo

"Um beijo em lábios é que se demora
e tremem no abrir-se a dentes línguas
tão penetrantes quanto línguas podem.
Mais beijo é mais. É boca aberta hiante
para de encher-se ao que se mova nela.
É dentes se apertando delicados.
É língua que na boca se agitando
irá de um corpo inteiro descobrir o gosto
e sobretudo o que se oculta em sombras
e nos recantos em cabelos vive.
É beijo tudo o que de lábios seja
quanto de lábios se deseja."

Jorge de Sena

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

V

Vai-se dissipando a minha ansiedade.
Ao meu redor, todo um cenário de grandiosidade me envolve.
(...)
Ouço a minha respiração sentida e profunda.
Esperam-me os sonhos!

in 17º Andar, Joana Castro

quarta-feira, 22 de setembro de 2010


O Único Mistério do Universo é o Mais e não o Menos


No dia brancamente nublado entristeço quase a medo
E ponho-me a meditar nos problemas que finjo...

Se o homem fosse, como deveria ser,
Não um animal doente, mas o mais perfeito dos animais,
Animal directo e não indirecto,
Devia ser outra a sua forma de encontrar um sentido às coisas,
Outra e verdadeira.
Devia haver adquirido um sentido do «conjunto»;
Um sentido, como ver e ouvir, do «total» das coisas
E não, como temos, um pensamento do «conjunto»;
E não, como temos, uma ideia do «total» das coisas.
E assim - veríamos - não teríamos noção de conjunto ou de total,
Porque o sentido de «total» ou de «conjunto» não seria de um «total» ou de um «conjunto»
Mas da verdadeira Natureza talvez nem todo nem partes.

O único mistério do Universo é o mais e não o menos.
Percebemos demais as coisas - eis o erro e a dúvida.
O que existe transcende para baixo o que julgamos que existe.
A Realidade é apenas real e não pensada.
O Universo não é uma ideia minha.
A minha ideia do Universo é que é uma ideia minha.
A noite não anoitece pelos meus olhos.
A minha ideia da noite é que anoitece por meus olhos.
Fora de eu pensar e de haver quaisquer pensamentos
A noite anoitece concretamente
E o fulgor das estrelas existe como se tivesse peso.

Assim como falham as palavras quando queremos exprimir qualquer pensamento,
Assim falham os pensamentos quando queremos pensar qualquer realidade.
Mas, como a essência do pensamento não é ser dita, mas ser pensada,
Assim é a essência da realidade o existir, não o ser pensada.
Assim tudo o que existe, simplesmente existe.
O resto é uma espécie de sono que temos,
Uma velhice que nos acompanha desde a infância da doença.

O espelho reflecte certo; não erra porque não pensa.
Pensar é essencialmente errar.
Errar é essencialmente estar cego e surdo.

Estas verdades não são perfeitas porque são ditas,
E antes de ditas, pensadas:
Mas no fundo o que está certo é elas negarem-se a si próprias
Na negação oposta de afirmarem qualquer coisa.
A única afirmação é ser.
E ser o oposto é o que não queria de mim...

Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"